Um guia para ter cultura
Uma bibliografia básica para quem quer compreender a aventura da humanidade
Por Paulo Francis
Pedem minha ficha acadêmica para jovens vestibulandos...Não tenho. Tentei um mestrado na Universidade Columbia em Nova York 1954, mas desisti, aconselhado pelo professor-catedrático Eric Bentley. Achou que eu perdia o meu tempo. Li toda a literatura relevante, de Ésquilo a Beckett, e sabia praticamente de cor a Poética de Aristóteles. Em alguns meses se lê tudo que há de importante em teatro. Li e reli anos a fio.
Mas, sem o doutorado ou nem sequer mestrado, me proponho fazer algumas indicações aos jovens, que, no meu tempo, seriam supérfluas, mas que, hoje, talvez tenham o sabor de novidade. Falo de se obter cultura geral. É fácil.
Educação era a transmissão de um acúmulo de conhecimentos. Hoje, é uma adulação da juventude, que supostamente deve fazer o que bem entende, estar na sua, como dizem, e o resultado é que os reitores de universidades sugerem que não haja mais nota mínima de admissão, que se deixe entrar quem tiver nota menos baixa. Deve haver exceções, caso contrário o mundo civilizado acabaria, mas a crise é real, denunciada por gente como o príncipe Charles, herdeiro do trono inglês, e por intelectuais como Alan Bloom, que consideram a universidade perdida nos EUA. No Brasil, houve a Reforma Passarinho nos anos 60. A ditadura militar tinha o mesmo vício da esquerda. Queria ser popular. Era populista. Quis facilitar o acesso universitário ao povo, como resa o catecismo populista. Ameaça generalizar o analfabetismo.
Não há alternativa à leitura. Me proponho apontar alguns livros essenciais ao jovem, um programa mínimo mesmo, mas que, se cumprido, aumentará dramaticamente a compreensão do estudante do mundo em que está vivendo.
Começando pelo Brasil, é
indispensável a leitura de Os Sertões, de
Euclides da Cunha. É curto e não é modelo de estilo. Euclides escreve como Jânio
Quadros fala. É cara do far-te-ei, a forma oblíqua de que Jânio se gaba. Mas o livro é
de gênio. Nos dá a realidade do sertão, que é, para efeitos práticos, o Brasil quase
todo, tirando o Sul; a realidade do sertanejo, e do nosso atraso como civilização, como
cultura, como organização do Estado. Euclides mostra o choque central entre o Brasil que
descende da Europa e o Brasil tropicalista, nativo, selvagem. Euclides apresenta
argumentos hoje superados sobre a superioridade da Europa, mas nem por isso deixa de estar
certo. Tudo bem ter simpatia pelo índio e o sertanejo, o matuto, mas nosso destino é
ser, à brasileira, à nossa moda, um país moderno nos moldes da civilização européia.
Euclides começou o livro para destruir Antônio Conselheiro e a Revolta de Canudos, mas
se deixou emocionar pela coragem e persistência dos revoltosos e terminou escrevendo um
grande épico, em prosa, que o poeta americano Robert Lowell, que só leu a tradução,
considera superior a Guerra e Paz, de
Tolstoi.
Mas o importante para o jovem é essa escolha entre o primitivo irredentista dos Canudos e
a civilização moderna, porque é o que terá de enfrentar no cotidiano brasileiro. É o
nosso drama irresolvido.
Leia algum dos grandes romances de Machado de Assis. O mais brilhante é Memórias Póstumas de Brás Cubas. Para estilo, é o que se deve emular. O coloquialismo melodioso e fluente de Machado. É um grande divertimento esse livro. Eu recomendaria ainda para os que tem dificuldade de manejar a lingua O Memorial de Aires. É o livro mais bem escrito em português que há.
Os gregos são um dos nossos
berços. Representam a luz e a doçura, na frase de um educador inglês, Mathew Arnold
(também poeta e crítico). Arnold falava contra a tradição judaico-cristã, dominante
na nossa cultura, na nossa vida, a da Bíblia
e do Novo Testamento, que predominaram no
mundo ocidental desde o século 5 da Era Cristã, quando o imperador romano Constantino se
converteu ao cristianismo. Estudos gregos sérios só começaram no século 19, quando se
tornaram currículo universitário, porque antes os padres e pastores não deixavam.
Mas leia originais. Escolhi quatro. Depois de se informar sobre Platão na enciclopédia
do seu gosto, se deve ler A Apologia, que é
a explicação de Sócrates a seus críticos, quando foi condenado à morte, e Simpósio, um diálogo de Platão. Platão não
confiava na palavra escrita. Dizia que era morta. Preferia a forma de diálogo.
Na Apologia se discute o que é mais
importante na vida intelectual. A liberdade de ter opiniões contra as ortodoxias do dia.
Ajudará o estudante a pensar por si próprio e ter a coragem de suas convicções.
Depois, o delicioso Simpósio. É uma
discussão sobre o amor, tudo que você precisa saber sobre o amor sensual, o
altruístico, o que chamam de platônico, é o amor centrado na sabedoria.
Platão colocou, à parte Sócrates, seu ídolo, no Diálogo,
Aristófanes, o grande gozador de Sócrates. Na boca de Aristófanes põe uma de suas
idéias mais originais. Que o ser humano era hermafrodita, parte homem parte mulher, e que
cada pessoa, depois da separação, procura recuperar sua parte perdida, e daí a
predestinação da mulher certa para um homem e do homem certo para uma mulher.
Imprescindível também ler As Vidas, de Plutarco, o grande biógrafo da Antiguidade. Ficamos sabendo como eram os grandes nomes em carne e osso, de Alexandre, paranóico, a Júlio Cesar, contido, a Antônio e Cleópatra. Shakespeare baseou grande parte de suas peças em Plutarco e leu em tradução inglesa, porque Shakespeare, como nós, não sabia latim ou grego. E, finalmente, como história, leia A Guerra do Peloponeso, de Tucídides. É sobre a guerra entre Atenas, Esparta, Corinto e outras, durante 27 anos, no século 5 antes de Cristo. Lendo sobre Péricles, o líder ateniense, Cléon, o führer espartano, e Alcebíades, o belo, jovem e traiçoeiro Alcebiades, nunca mais nos surpreenderemos com qualquer ato de político em nossos dias. É o maior livro de história já escrito. Sempre atual.
Da Roma original basta ler Os Doze Césares, de Suetônio, e Declínio e Queda do Império Romano, de Gibbon. Mais um banho de natureza humana.
Meu conhecimento científico é quase nenhum. Mas lí, claro, a Lógica da Pesquisa Científica, de Karl Popper, quando entendi o que esses cabras querem. Para quem quer um começo apenas, recomendo o prefácio do Novum Organum, de Francis Bacon, que quer dizer, o título, novo instrumento, e Bacon explica o método científico e o que objetiva a ciência. E para complementá-lo leia o prefácio dos Os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, de Isaac Newton, e o prefácio de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead de seus Principios da Matemática. Também vale a pena ler a História da Filosofia Ocidental, de Bertrand Russell, e o capítulo sobre Positivismo Lógico, que é a filosofia calcada no conhecimento científico. Em resumo, tudo que pode ser provado lógica e matematicamente, é filosofia.O resto não é. Acho isso perfeitamente aceitável. Dispenso o resto.
É nas artes que está a
sabedoria. Como viver bem sem ler Hamlet, de
Shakespeare? Está tudo lá em linguagem incomparável, é de uma clareza exemplar, tudo
que nós já sentimos, viremos a sentir, ou possamos sentir.
Preferi citar junto com Shakespeare uma peça grega, que considero vital: Antígona, de Sófocles. Há uma tradução de Antígona, em verso, por Guilherme de Almeida, que Cacilda
Becker representou no Teatro Brasileiro de Comédia.
Antígona é o que há de melhor na mulher.
É a jovem princesa cujos irmãos morreram em rebelião contra o tio, o rei Creon, e ela
quer enterrá-los, porque na religião grega espíritos não descansam enquanto os corpos
não são enterrados. Creon não quer que sejam enterrados, como advertência pública a
subversivos. Antígona desafia Creon. Ele manda matá-la. Ela morre. Seu noivo se suicida.
É o filho de Creon, que enlouquece. Parece um dramalhão, mas não é. É a alma feminina
devassada em toda sua possibilidade fraterna. Hegel achava que Antígona
era o choque de dois direitos, o direito individual e o direito do Estado. E assim definiu
a tragédia.
A melhor história de Roma é a
de Theodore Mommsem. A melhor história da Renascença é a de Jacob Buckhardt. Tudo que
você precisa saber.
E aprenda com um dos mais famosos autodidatas, Bernard Shaw (o outro é Trotski). Leia
todos os prefácios das peças dele. São uma história universal. Um estalo de Vieira na
nossa cabeça. Em um dia você lê todos. Anotando, uma semana. Também vale a pena ler a Pequena História do Mundo, de H.G.Wells, superada em
muitos sentidos, mas insuperável como literatura.
Passo tranquilo pelo Iluminismo. Foi tão incorporado a nossa vida, que não é necessário ler Voltaire ou Diderot. Os livros de Peter Gay sobre o Iluminismo são excelentes. Dizem tudo que se precisa saber. Se se quer saber mesmo o que foi o cristianismo, a obra insuperada e As Confissões de Santo Agostinho, uma das grandes autobiografias, à parte a questão religiosa.
Não é preciso ler A Origem das Espécies, de Darwin, mas é um prazer ler Viagens de um Naturalista ao redor do Mundo, as aventuras de Darwin como botânico e zoólogo, a bordo do navio inglês Beagle, nos anos 1830, pela América do Sul, com páginas inesquecíveis sobre Argentina, Brasil e Galápagos, que está até hoje como Darwin encontrou (e o Brasil e Argentina, na sua alma?)
Houve três grandes revoluções no mundo, a
americana, a francesa e a russa. A literatura não poderia ser mais copiosa. Mas basta
ler, por exemplo, Cidadãos, de Simon
Schama, para se ter um relato esplêndido da revolução interrompida, 1789-1794, na
França, e concluir com o livro de Edmund Wilson, Rumo à
Estação Finlândia.
O melhor livro sobre a Revolução Francesa é Schama é conservador, Wilson não era, quando
escreveu, fazia fé, ainda na década de 30, como tanta gente, na Revolução Russa. Mas a
esta altura, e mesmo antes de ele morrer, em 1972, é fácil notar que a Revolução Russa
não teve o Terror interrompido, como a Francesa, mas continuou até Gorbachev revelar o
seu imenso fracasso.História da
Revolução em França, de Edmund Burke, de 1790, que previu o Terror de
Robespierre e Saint-Just. Se o estudante quer um livro a favor da Revolução Francesa,
leia, o título é o de sempre, o de Gaetano Salvemini. A favor da russa a de Sukhanov,
que a Oxford University Press resumiu num volume, ou A Revolução
Russa, de Trotski, um clássico revolucionário. Mas os fatos falam mais
alto que o brilho literário de Trotski.
Sobre a Revolução Americana não conheço livro bom algum traduzido, mas por tamanho e
qualidade, um volume só, sugiro a da editora Longman, A
History of the United States of America, do jovem historiador inglês Hugh
Brogan, 749 págs, apenas, quando comprei custava US$ 25. Tem tudo que é importante.
Em economia, a Abril publicou 50 volumes dos principais economistas. Eu não perderia tempo. Têm tanta relação com a nossa vida como tiveram Zélia e a criançada assessora. Mas há o Dicionário de Economia, também da Abril. Quando tascarem o jargão, você consulta para saber, ao menos, o que significa a embromação. Economia se resume na frase do português: quem não tem competência não se estabelece.
Dos romances do século 19, Guerra e Paz, de Tolstoi, e Crime e Castigo, de Dostoiewski, me parecem absolutamente indispensáveis. Guerra e Paz porque é o retrato completo de uma sociedade como uma grande familia, porque rimos e choramos sem parar, porque contém um mundo e as inquietações do protagonista, Pierre Bezhukov, que até hoje não foram respondidas. Crime e Castigo, porque exemplifica toda a filosofia de Nietzsche de uma maneira acessível e profundamente dramática, de como o cérebro humano é capaz de racionalizar qualquer crime, que tudo é relativo, em suma, a pessoa que pensa e age, como Raskolnikoff, o protagonista. Vale tudo. Dostoiewski, para nos impedir de aniquilar uns aos outros, acrescenta que não se pode viver sem piedade.
Dos modernos, Proust é maravilhoso, mas penoso, Joyce é desnecessário, mas vale a pena ler as obras-primas de Thomas Mann, A Montanha Mágica, para saber o que foi discutido filosoficamente neste século, e Dr Fausto, que leva o relativismo niilista que domina a cultura moderna e de que precisamos nos livrar, se vamos sobreviver culturalmente, como civilização, e não como meros consumidores, num nível abjeto de satisfação animal.
Há muitas obras que me encantaram e não estou, de forma alguma, excluindo autores ou quaisquer livros. A lista que fiz me parece o básico. Em algumas semanas, duas horas por dia, se lê tudo. Duvido que se ensine qualquer coisa de semelhante nas nossas universidades. Se eu estiver enganado, dou com muito prazer a mão à palmatória.
Por Paulo Francis, para o jornal - OESP - 30/05/91 (PF4d01.htm)
Onde encontrar os livros sugeridos
Alguns dos livros recomendados são encontrados apenas em bibliotecas. Outros, podem ser achados, ou encomendados, nas livrarias.
Antígona - Argumento (011 881-4375)
Apologia - Argumento
Cidadãos - Cia. das Letras - Brasiliense (011 280-4337)
As Confissões - Livraria Farah
(011 36-7206)
Crime e Castigo - Ediouro - Argumento
Declínio e Queda do Império Romano - Cia. das Letras -
Brasiliense
Diálogo - Hemus - Argumento
Dicionário de Economia - Abril
- Argumento
Os Doze Césares - Ediouro - Bestseller (011 852 9115)
Dr.Fausto - Nova Fronteira -
Argumento
Freud: Uma Vida Para o Nosso Tempo - Cia. das Letras -
Bestseller
A Guerra do Peloponeso - UNB - Distribuidora Catavento (011
289 0811)
Guerra e Paz - Itatiaia - Argumento
Hamlet - LPM e JB - Bestseller
História da Filosofia Ocidental - Cedil - Farah
História da Revolução em França -UNB
History of the United States - pode ser importado pela
Livraria Cultura (011 285 4033)
A Lógica da Pesquisa Científica - Cultrix - Catavento
Memorial de Aires - Ática -
Bestseller
Memórias Póstumas de Brás Cubas - Ática - Siciliano (011
853 5130)
A Montanha Mágica - Nova
Fronteira - Argumento
Novum Organum - Livraria Brandão (011 255 3456)
Pequena História do Mundo - José Olympio - Farah
Pigmaleão - Europa - América
Poética Clássica - Aguilar - Brasiliense
Os Princípios da Matemática -
Biblioteca Mário de Andrade
Os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural - Nova
Stella
Reflexões Sobre a Revolução Francesa - Catavento
História da Revolução Russa - Paz e Terra - Brandão
Rumo à Estação Finlândia - Cia. das Letras - Bestseller
Os Sertões - Francisco Alves - Argumento
Simpósio - Ediouro - Argumento
Viagens de Um Naturalista ao Redor do Mundo - Farah
As Vidas - Catavento
A Biblioteca Mário de Andrade (SP) tem uma edição francesa de A
História de Roma e a Revolução Francesa em
italiano.